Centro Espírita Maria Magdalena

A mensageira sublime

Mediunidade: Desafios e Bênçãos.
Divaldo Franco – espírito Manoel Philomeno
de Miranda, ed.Leal – Salvador , 2012

Quando o amor exausto, após jornada cansativa pelos séculos, parou para proceder a um balanço das atividades desenvolvidas, constatou, entristecido, que após tantos e incessantes labores, poucos resultados positivos apresentavam as suas lides edificantes.


O ser humano continuava odiando o outro, a fé religiosa promovia hecatombe e até mesmo a fraternidade , que se iniciara entre os filósofos como
grande ideal, transformara-se em expressivos caudais de sangue…


Em face das conjunturas e conclusões, não se pôde furtar às lágrimas abundantes que passou a verter, emocionadamente, dominado pela tristeza.
Súbita aflição desencadeou-se lhe no íntimo, e sem mais poder dominar a emoção, permaneceu em pranto, como decorrência do acurado exame
retrospectivo das suas realizações. 


Desde a partida súbita do Nazareno, brando e gentil, no cimo da cruz, saíra solitário pelos caminhos, recolhendo os desertores e os amedrontados discípulos, mantendo colóquios e usando a voz da saudade em evocações inesquecíveis das suas lições. 

Recordou-lhes os ensinamentos renovadores ouvidos junto às águas plácidas do mar da Galileia, em tardes e noites incomparáveis, sob as claridades do Sol ou o lucilar das estrelas, ou ainda nas louras manhãs adornadas de luz…

Reunira-os, concitando todos para a preparação da seara a que Ele se referira inúmeras vezes.

Posteriormente, na inolvidável região galileia, antes do crepúsculo, estivera na multidão agônica, despedindo-se também do Amigo incomum, disposto a ficar entre os homens e mulheres para dar continuidade às labutas ásperas do cotidiano
das existências.


Desde então, palmilhara sendas difíceis, assinaladas por impedimentos de toda ordem, nunca se permitindo esfriar a ardente devoção pelas almas, cujas lágrimas enxugava, falando-lhes a linguagem do perdão, e a todos os perseguidos que clamavam por esforço ou justiça…

Durante três sucessivos séculos de intermináveis martírios para os seguidores do Crucificado, disfarçara-se, ora como tolerância que entende, noutros momentos como esperança que abençoa, como alegria que se exalta em perder, de disso depender a felicidade d outrem, sempre de forma de fraternidade que edifica…

Vencera desenfreadas refregas e nunca, uma vez sequer, desanimara nos objetivos essenciais, ante os campos juncados dos cadáveres daqueles abnegados servidores da fé, dos tutelados do seu programa, encarregados de alargar os céus do entendimento humano.
Acompanhara a mensagem do Carpinteiro incompreendido liberar-se da arena sangrenta para galgar as escadarias palacianas, seguindo ao seu lado, fazendo parte do cortejo que então se adornava de pompa e de poder, sem que, todavia, fosse notado pelos exaltados triunfadores do momento… 


Acompanhara homens verdadeiros e, lamentavelmente, depois de suas grandes vitórias nas aventuras políticas, fora expulso dos domínios conquistados, voltando a caminhar pelos escusos antros entre sombras atormentadas, tentando falar-lhes, mas aguardando a hora de poder retornar ao seu convívio…

Na solidão a que fora relegado, longe do ouro e do luxo, somente de quando em quando podia visitar os tronos e falar aos tiranos, oculto nas vestes de artistas incompreendidos, desbravadores perseguidos e fiéis servidores da mensagem imortal, à hora dos julgamentos arbitrários e das mortes triunfantes, usando a linguagem silenciosa do heroísmo.

Sempre usava a voz da descrição aos homens arrebatados antes das guerras de religião, evocando o Pacificador esquecido, inutilmente, e quando conseguira o ensejo, não lograra pronunciar mais do que expressões ligeiras em balbucios de alento e de olvido ao mal, junto aos ouvidos dos atormentados na fronteira da morte, banhados de suor e de lágrimas…

Nos movimentos de restauração da fé entre pensadores avançados correra pressuroso, mas logo verificara que a ardência do entusiasmo e a força dos cismas logo se transformavam em guerras fraticidas e em assassinatos legais, oferecendo seus recursos aos incinerados nas fogueiras e trucidados nos postes de martírio… 


Sem receio, deixara-se içar com as velas dos descobridores audaciosos em mares bravios e desconhecidos, visitando terras novas, carregando com renovado esforço e entusiasmo os tesouros das possibilidades de disseminar o afeto entre todos os povos recém-conquistados… Todavia, em breve, sentira-se incompreendido, uma vez mais, quando o látego, em nome da civilização, lapidava os dorsos nus dos que foram feitos escravos sob o beneplácito da Lei e a proteção da cruz em que percebera o Todo misericordioso…

Apesar disso, falara aos seres submissos, animando-os na inquietação e consolando-os na profunda saudade das longes pátrias e distantes famílias, voltando suas esperanças para o futuro, dilatando-as, quando as lágrimas dos seus olhos, cativos emocionavam os livres…
(…) Olhando para trás só havia escombros e, entre ruínas, umas raras florações do seu hinário cantado pelo Poeta da vida no mandamento maior,
derramando perfume alentador. 

Aturdido ao peso de tantos desencantos, o amor prosseguiu chorando e, com a voz embargada, suplicou ao Compassivo coração atendimento ao seu relatório e urgente socorro, a fim de que o empreendimento que lhe fora confiado não descambasse para a morte e o esquecimento.

Após demorada meditação entre anseios e preces, o amor escutou a voz inolvidável, como retornasse do silêncio dos séculos a falar-lhe confiante e bondosa:

Dar-te-ei alguém que de alguém que de agora em diante cobrirá tuas pegadas, por onde quer que vás, com o perfume da minha ternura. Estará ao teu lado em todas as investiduras novas e falará no teu silêncio com a poderosa voz da ação realizadora.

Jamais tornarás pelas sendas do serviço a sós. 


Calou-se a voz sublime.

Foi então que o amor, erguendo-se, fitou o céu… Dourado raio luminoso rasgou as distâncias e modelou no ar um flamejante coração que, após graciosos movimentos, desceu, fundindo-se no seu coração.


Começava ali uma era nova para a fé.

O Consolador abria agora a cortina de um novo mundo, inaugurando o reinado anunciado por Jesus-Cristo e, quando as trombetas anunciaram os tempos chegados, Allan Kardec, o escolhido pelo Mestre Jesus, colocava como enunciado máximo da doutrina que em breve iria iluminar a Terra, o grandioso mandamento:

“Fora da Caridade não há salvação.”
E hoje, em todo lugar onde brilha a luz clara e bendita do Espiritismo,
encontramos o amor e a caridade, unidos, construindo o mundo cristão.

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